Depois de pensar muito, até demais, tinha decidido agir como você. Não dizer o que sinto, o que penso, o que me incomoda ou o que me faz feliz. Percebi que o amor da minha vida iria querer saber tudo sobre mim, mas você não. Você não era ele.
Vivi o início e a expectativa de um romance que nunca chegou a acontecer. Me prendi às promessas, às juras e ao seu silêncio. Meu único pedido foi que me escolhesse, que eu fosse sua prioridade. Nunca fui. Mas acreditei que um dia seria. Você me prometeu isso. E eu fiquei. Fiquei mais tempo do que deveria.
Antes mesmo de a luz no fim do túnel surgir, vi uma parede. Erguida sem que eu soubesse. O caminho era escuro, e eu não sabia o que viria a seguir. Foi ali que, com toda a força que eu levava comigo, dia após dia, caminhando no breu em busca da luz, bati com tudo e quebrei a cara.
Sabe o pior? Eu estava sozinha. E descobri tarde demais que você estava do outro lado do muro. Você que o ergueu. As promessas tinham sido vazias, frias, solitárias demais. Exatamente como eu estava naquele momento. E, ainda assim, insisti.
Meu segundo e último pedido: que você retribuísse um pouquinho de tudo o que fiz por você. E eu lembro do que você me respondeu:
— Só porque você fez por mim, eu sou obrigado a fazer também?
E não, você não é "obrigado". Mas eu gostaria que quisesse. Também percebo, neste momento, que eu só estava me enganando. Que, se eu fosse ser escolhida, já teria sido. Mas, se não fui, por que seria agora? Me entende?
Escolher ser recíproco.
Só te pedi duas coisas ao longo de mais de oito anos, e é ridículo pensar que eu estava pedindo a mesma coisa, mas com palavras diferentes.
Sabe todas aquelas vezes em que doeu em mim e eu me convenci a ficar porque acreditei nas tuas palavras? E que palavras eram essas? As mesmas que antes sempre me faziam sentir culpa?
Sim.
E só agora, quando tudo ruiu, foi que percebi.
É incrível como as pessoas mostram quem são e nós optamos por não ver. Ou, se vemos, arrumamos desculpas para contornar. Nos iludimos.
Não cheguei ao fim do túnel.
Não enxerguei a luz.
Cheguei a achar que o muro tivesse pequenas brechinhas entre as pedras. Achei que o que eu via eram pequenos feixes de luz atravessando por elas. Demorei para entender que não eram brechas. Mas, o muro que ainda estava inacabado.
Tentei gritar por você, torcendo para que o som se propagasse por ali. Talvez fosse um engano e você não soubesse que tinha me prendido ali. Mas gritar não bastou para você me ouvir, olhar para trás e me procurar. A parede entre nós era espessa demais.
Então, cerrei os punhos e esmurrei repetidamente, tantas vezes, querendo desestabilizar a estrutura que me impedia de chegar até você. Pequenas pedrinhas se soltaram e caíram em sua direção. Isso só fez você acelerar ainda mais o passo com medo de ser atingido. Minhas mãos sangravam em carne viva, o calor das minhas lágrimas se misturavam ao ardor dos cortes, e o desespero me sufocava ainda mais.
Respirei fundo. Elaborava qual seria a minha última tentativa.
Dei dois passos para trás, me afastando daquela monstruosidade de amontoados de pedras. Foi então que pude notar uma portinha velha e estreita no cantinho da parede, escondida no rastro de toda aquela escuridão. Já machucada, sem forças para gritar e tomada pela angustia, aquela parecia ser uma saída muito óbvia que eu não havia notado antes. Caminhei até ela, fraca, mas confiante de todo o mal-entendido.
A maçaneta era feita de um ferro frio. Tão fria quanto um cubo de gelo. À medida que aliviava a dor das feridas, ainda sentia que podia queimar minhas palmas. Ainda assim, agarrei-a com o pouco de qualquer coisa que restava nas pequenas lacunas dentro de mim e puxei com tudo.
O barulho pesado arrastado no chão ecoou pelo vazio do lugar. E pela brecha que consegui abrir, pude vê-lo. Nem reparei se ele ouviu. Voltei a tentar abrir mais daquela porta pesada. Apenas meu braço passava pelo espaço. Era tudo o que eu tinha.
Estiquei meu braço o mais longe que pude. E não pude muito. Ele já estava distante demais de mim. Então, gritei novamente. Minha garganta ardia.
— Por favor!
Ele estancou os passos e, dessa vez, olhou por cima do ombro. Tinha a mesma expressão séria de costume. Seus olhos pareciam me ver, mas não me enxergavam. Talvez eu estivesse machucada demais para que ele me reconhecesse. Talvez tivesse estranhado meu olhar, que devia transparecer a ânsia de ainda ser escolhida. Ou, talvez... a escuridão me escondesse...
Ele estava longe do muro e, assim como eu vi, ele também devia poder ver a porta. Me ver. Mas escolheu não olhar para lá. Olhou para o paredão que nos separava, muito maior do que eu ali, com a mão estendida e clamando para que me notasse no cantinho.
Não era por minha culpa que eu não era vista. Mas eu ainda não sabia.
Também não me restou voz para chamá-lo mais uma vez. E mais outra, se fosse preciso.
Ele precisava me ver. Mas não viu. Virou-se de costas novamente e seguiu seu caminho.
Dali puder olhar para além dele, e finalmente, notar que a luz estava próxima. Ela surgia suavemente poucos metros à frente de onde ele estava. Mas ele caminhava sozinho. E chegaria lá sozinho também.
Eu precisava me recuperar o bastante para ter forças e poder abrir aquela porta e chegar lá também.
Não mais juntos, como ele havia me prometido. Porém, com a confiança em mim restaurada e mais capaz. Afinal, andei até aqui sozinha, sem perceber.
Enquanto ele caminhava pelo mesmo túnel, ia à frente "abrindo caminho", e essa distância foi aumentando. Ele avançava, e eu protegia suas costas. Quando, na verdade, enquanto eu acreditava que ele preparava a passagem para nós dois, cada passo seu para longe de mim servia para erguer o muro que um dia nos separaria.
Mas, eu só precisava continuar caminhando como tinha feito até aqui. E dessa vez, sem dor, sem sofrimento e com a minha voz.

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